sábado, 8 de outubro de 2016

Areia mágica


Porto Santo, um novo destino de saúde natural
O fenómeno nada tem de novo, mas só agora foi estudado e compreendido: os famosos banhos de areia do Porto Santo têm mesmo eficácia terapêutica. Os cientistas já sabem porquê.

Os banhos de areia na praia da ilha do Porto Santo são praticados há dezenas de anos, por pessoas com patologias do sistema locomotor. Não é só turismo o que se procura naquela ilha do arquipélago da Madeira. É também saúde, e os cientistas descobriram que as propriedades terapêuticas e medicinais da areia e de outros recursos naturais da ilha são um facto.

Mas vamos por partes, que a história é longa e deve ser contada desde o princípio. Há cerca de 40 anos, o então presidente da câmara municipal, Francisco Taboada, endereçou uma carta ao professor Celso Gomes, hoje catedrático aposentado da Universidade de Aveiro, mas na altura professor na Universidade de Angola, solicitando um parecer sobre as virtudes terapêuticas da areia. E justificava: “Após um período de banhos de duas ou três semanas, os pacientes sentem-se tão bem que por vezes deixam na Câmara as canadianas que trouxeram para a ilha.” Acompanhava a carta uma pequena encomenda com areia.

Os pacientes faziam covas na areia seca da zona de transição entre a praia e a duna frontal, deitavam-se nelas e cobriam as partes do corpo afectadas com uma camada de areia muito pouco espessa. Sendo a temperatura da areia bastante superior à do corpo, este transpirava abundantemente. O banho durava entre 15 e 20 minutos, o corpo transpirado fixava fortemente os grãos finos da areia, como um panado, e o banhista, depois de sentir o corpo seco, aproximava-se do mar, sendo a areia retirada do corpo, ainda que com dificuldade, com a água salgada.

À distância, pouco era possível investigar, excepto notar que a areia da praia do Porto Santo era diferente da das outras praias, portuguesas e não só. Os grãos daquela areia possuem composição calcária de origem biogénica e um tamanho invulgarmente pequeno (valor médio à volta de 0,175 milímetros de diâmetro) e uniforme. Os estudos ficaram por aqui, mas o interesse pela questão permaneceu.

Investigação na praia
Só em 1995, estava já Celso Gomes na Universidade de Aveiro, manifestou ao seu aluno João Baptista Pereira Silva, madeirense e natural do Funchal, que frequentava a licenciatura em engenharia geológica, interesse pelo estudo da areia da praia do Porto Santo. Com a necessária anuência, fizeram-se então trabalhos preliminares, de campo e de laboratório. Mais tarde, houve oportunidade de preparar um programa de doutoramento para o engenheiro João Baptista, com o objectivo fundamental de estudar e procurar explicar as propriedades específicas da areia justificativas dos seus efeitos positivos em doenças do foro músculo-esquelético.

O programa de tese abrangia também o estudo de outros recursos naturais do Porto Santo, como a água do mar, a água de nascentes, as argilas (particularmente as do tipo bentonite, únicas em Portugal) e os produtos hortícolas e frutícolas, que se diferenciam dos demais principalmente pelo seu sabor (tomate, uvas, figos, melão, melancia, maracujá...). A tese, Areia de Praia da Ilha do Porto Santo: Geologia, Génese, Dinâmica e Propriedades Justificativas do Seu Interesse Medicinal, seria defendida em provas públicas em 2002.

Vestígios de um recife coralígeno
Os estudos de campo revelaram que havia areia idêntica à da praia do Porto Santo em depósitos posicionados no interior da ilha, e também em certos trechos da costa norte. Por exemplo, na localidade denominada Fonte da Areia, havia uma falésia cuja parte superior era constituída por um depósito muito espesso de areia calcária, claramente de origem eólica. A areia fora removida por acção do vento de uma praia frontal à falésia, praia esta onde a areia foi acumulada depois da desintegração de um espesso recife coralígeno desenvolvido na plataforma costeira de perfil suave.

Datações em amostras de areia carbonatada do Porto Santo, utilizando o método do radiocarbono, revelaram idades de 31 a 15 mil anos, pelo que a desintegração do dito recife teria tido lugar durante a última grande glaciação, quando o nível da água do mar baixou progressivamente, expondo o recife à acção da abrasão marinha.

Os estudos de laboratório confirmaram “a origem biogénica da areia que hoje apresenta a cor ‘dourada’ que suporta o título ‘ilha da praia dourada’ atribuído ao Porto Santo”: “A areia seca na zona de transição praia/duna frontal, em dias de sol, pode atingir temperaturas da ordem de 60 a 65 graus, quando a temperatura do ar é de 24 a 27 graus, a temperatura da água do mar é de 23 a 24 graus e a humidade relativa é de 70 a 80 por cento”, explicam Celso Gomes e João Baptista.

“A areia é constituída por bioclastos (componente maioritário) e vulcanoclastos (componente minoritário, inferior a cinco por cento). Os bioclastos, representados por conchas ou fragmentos de bivalves, de foraminíferos, de algas calcárias, de espongiários e radiolários, são constituídos por três espécies de carbonato de cálcio (calcite, calcite magnesiana e aragonite). Os vulcanoclastos são feldspato e magnetite titanífera. Cálcio, magnésio e estrôncio são os elementos químicos dominantes na composição química da areia, mas outros elementos igualmente bioessenciais, como o iodo, o fósforo, o enxofre e o silício, também estão presentes”, adiantam.

Um balneário de areias
João Baptista, membro investigador da Unidade GeoBioTec da FCT da Universidade de Aveiro, participou, na qualidade de investigador e consultor técnico e científico, em vários programas de saúde que levaram à construção, no Hotel Porto Santo, primeiro de um balneário-piloto e, mais tarde, de um balneário efectivo, para o qual foi proposta a denominação de “Centro de Geomedicina do Hotel Porto Santo”. “O maior número de pacientes que o frequentam, em grupos que são acompanhados de médicos, enfermeiros e nutricionistas, são oriundos dos países nórdicos (Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca). No início das investigações, houve mesmo a contribuição determinante de uma clínica de tratamento de dor de Oslo, e do médico e professor norueguês Bjørg Fagerlund”, relata.

Os efeitos terapêuticos da areia são de dois tipos: termoterápico e quimioterápico. O primeiro tem por base a capacidade da areia para receber e acumular o calor natural da radiação solar, ou o calor artificial facultado no balneá­rio. “O calor é fundamental para melhorar o fluxo sanguíneo e aumentar as aberturas dos poros da pele, que funciona como membrana porosa, deixando sair os elementos químicos transportados em solução pelo suor produzido e deixando entrar ou absorver os elementos químicos que, por dissolução, passaram da areia para o suor.” Quanto ao efeito quimioterápico, baseia-se na incorporação por absorção através da pele dos iões libertos dos grãos carbonatados constituintes da areia, quando estes são parcialmente dissolvidos pelo suor ácido (um pH de 4,5 a 6).

Pode assim dizer-se que a interacção entre a areia carbonatada biogénica do Porto Santo e o corpo humano se faz através de fase intermédia constituída pelo suor de carácter ácido desenvolvido na interface areia/corpo durante o banho de areia, cuja temperatura óptima deve ser ligeiramente superior (40 a 42 graus) à do corpo humano. O suor proporciona a dissolução química parcial dos carbonatos da areia (principalmente os bioclastos resultantes de algas vermelhas): iões de sódio, potássio e cloro, constituintes essenciais do suor, são libertados do corpo, que em contrapartida absorve iões de cálcio, magnésio e estrôncio que passaram da areia para o suor. Findo o banho, à medida que o suor vai secando, os iões vão sendo absorvidos pelo corpo e incorporados nos fluidos celulares e intercelulares e na corrente sanguínea.

As argilas esmectíticas do Porto Santo, resultantes da alteração em ambiente submarino de materiais vulcânicos, umas tradicionalmente utilizadas por residentes da ilha para a preparação de máscaras faciais, outras utilizadas na cobertura isolante das tradicionais “casas de salão”, foram igualmente objecto de investigação. As propriedades deste tipo de argilas são hoje bem conhecidas, assim como as funções que podem desempenhar quando incorporadas em veículos apropriados.

Novas formulações
Os últimos cinco anos dos trabalhos desenvolvidos pelos especialistas foram dedicados à preparação e experimentação de produtos diferenciadores, terapêuticos e cosméticos, tendo por base areia carbonatada biogénica e argila esmectítica do Porto Santo.

O conhecimento das propriedades específicas da areia carbonatada biogénica e da bentonite do Porto Santo, conjugado com o alargamento da equipa a investigadores da Faculdade de Farmácia do Porto e da Universidade Fernando Pessoa, proporcionou o desenvolvimento de produtos diversos com essa finalidade (cremes e leites corporais, máscaras faciais, geles esfoliantes e protectores solares).

As formulações desenvolvidas e os efeitos mostraram-se promissores na fase experimental e têm sido apresentados em várias reu­niões científicas internacionais. Algumas das formulações têm sido testadas com sucesso em pacientes com patologias inflamatórias das articulações, nomeadamente do joelho, do ombro e do cotovelo.

As máscaras à base de tipos especiais de argila são as preparações cosméticas mais antigas. A argila participa, quer como excipiente dando corpo às preparações, quer como agente activo importante na preparação de formulações com diversas acções. Assim, as máscaras faciais/corporais podem apresentar funções de limpeza, esfoliante, tonificante, desengordurante, adstringente, tensora, hidratante e branqueadora.

Além da esfoliação, é conveniente a utilização de produtos cosméticos e de higiene corporal com propriedades hidratantes e emolientes que contribuam para a manutenção das propriedades mecânicas da pele, nomeadamente a flexibilidade, a plasticidade e a elasticidade. Com este fim, foram desenvolvidos também produtos complementares de limpeza e hidratação, nomeadamente um gel de banho e uma loção hidratante contendo Aloe vera, para reposição do filme hidrolipídico da pele, e uma água mineromedicinal refrescante e tonificante beneficiada, tendo por base a água captada no vale da Fontinha, na antiga Casa das Águas do Porto Santo.

Denominação de origem
Por outro lado, está já projectada a preparação e o desenvolvimento de um pelóide (lama terapêutica) cujos componentes básicos são a bentonite, a areia carbonatada biogénica micronizada e a água do mar do Porto Santo. O pelóide seria indicado para o tratamento de problemas articulares (artrose e artrite reumatóide) em unidades locais de geomedicina, talassoterapia, etc.

Uma das preocupações dos investigadores tem sido introduzir nos produtos a desenvolver e a certificar o conceito de denominação de origem. Por isso, está a fazer-se a caracterização detalhada das formulações para registo de produtos e de marcas, tendo em vista o surgimento de empreendedores interessados na produção e comercialização.

No final deste ano, Celso Gomes e João Baptista vão lançar um livro bilingue intitulado Ilha do Porto Santo: Estância Singular de Saúde Natural / Porto Santo Island: Unique Resort of Natural Health, com informação completa sobre os recursos geológicos e outros da ilha do Porto Santo com interesse para a saúde e bem-estar. Os autores admitem que a psamoterapia ou arenoterapia, se associada a outras naturoterapias (climatoterapia, helioterapia, hidroterapia e peloterapia), pode promover e potenciar o Porto Santo como estância singular de saúde natural, o que significa que a pequena ilha pode tornar-se num importante destino turístico, já não pelos banhos de mar ou de sol, mas pelos banhos de areia que tanto intrigavam o autarca Taboada.

Mar de gente
Actualmente, a equipa de investigadores ligada ao estudo e aplicação do potencial terapêutico das areias do Porto Santo inclui, além de Celso Gomes e João Baptista, investigadores da Unidade de Investigação GeoBioTec da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, da Universidade de Aveiro (Fernando Ernesto Almeida e Jorge Hamilton Gomes) e do Centro de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (Delfim Santos, Rosa Pena, Maria Helena Amaral e J.M. Sousa Lobo). Do grupo fazem ainda parte investigadores da Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Fernando Pessoa, no Porto (Rita Oliveira, Pedro Barata e Carla Gomes).




M.M. SUPER 150

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