terça-feira, 4 de outubro de 2016

Descobertas células amigas do transplante de fígado


O medo da rejeição está intimamente ligado ao transplante de órgãos. Um corpo estranho pode ser alvo de ataque do sistema imunológico e pôr em risco o sucesso do transplante. Apesar de existirem métodos para impedir esta reacção imunológica, estas terapêuticas afectam-nos e podem diminuir a nossa resposta imunológica para combater organismos patogénicos como bactérias ou vírus e para impedir o desenvolvimento de fenómenos como o cancro.

Agora, cientistas portugueses descobriram que uma determinada população de linfócitos - uma das linhas celulares de glóbulos brancos que patrulham o corpo - em certas alturas pode ser activada e suprime as acções imunitárias que ocorrem especificamente no fígado. Estas células podem vir a permitir transplantes do fígado sem risco de haver rejeição.

"Estes linfócitos são imunossupressores e diminuem a acção de outros linfócitos", explicou Luís Graça ao PÚBLICO. O investigador está à frente da equipa de Imunidade Celular no Instituto de Medicina Molecular em Lisboa e é o último autor do artigo que descreve a descoberta, publicado na edição de 16 de Julho da revista científica Journal of Immunology.

As células chamam-se linfócitos NKTreg e as suas propriedades foram descobertas em ratinhos. A equipa estudou o equivalente à esclerose múltipla nestes animais. Já se conheciam linfócitos imunossupressores que regulavam a actividade de outros linfócitos, mas actuavam em todo o corpo. As células NKTreg "têm moléculas à superfície que respondem a estímulos do fígado e vão permitir criar imunossupressão que está restrita a este órgão", disse o investigador.

Marta Monteiro, a primeira autora do artigo, também já mostrou que estes linfócitos existem nos humanos. As possibilidades terapêuticas abrem-se, não só para transplantes directos do fígado, mas também porque há tratamentos de outras doenças, como a produção de insulina para os diabéticos, que podem passar por pequenos transplantes neste órgão.

No futuro, poderá ser possível "utilizar produtos que facilitam a modificação para que estas células adquiram actividades imunossupressoras in vivo", explicou o cientista. Outra alternativa é estimulá-las in vitro e introduzi-las depois nos pacientes.

O processo descrito no artigo e a potencial acção terapêutica já foram patenteados pela equipa. O próximo passo para "tentar perceber se esta descoberta vai ter benefício real para a saúde humana" é constituir uma empresa start up. Segundo Luís Graça, o tempo até que esta terapêutica seja posta em prática "nunca demora menos de sete ou oito anos".

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