sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Fármacos alucinantes

Cientistas e investigadores de todo o mundo procuram recuperar o potencial clínico do LSD, do ecstasy, dos cogumelos alucinógenios e de outras substâncias psicoactivas de má reputação.

É inevitável associar o psicadelismo ao movimento hippie da década de 1960 e à inspiração dos compositores da década prodigiosa da música pop, mas o certo é que a palavra possui uma origem estritamente terapêutica. Hoje, universidades de prestígio como Harvard ou a Johns Hopkins voltam a estudar os efeitos benéficos exercidos sobre a mente por drogas psicadélicas como o LSD, o ecstasy, os fungos alucinogénicos (os conhecidos “cogumelos mágicos”), a marijuana, a ayahuasca ou a raiz africana ibogaína.

Poderia afirmar-se que a história das substâncias psicoactivas de laboratório “arrancou” em 1943, quando o químico suíço Albert Hofmann descobriu o ácido dietilaminolisérgico, mais conhecido por LSD. Hofmann trabalhava para os laboratórios Sandoz, que distribuíram amostras do produto por instituições de todo o mundo, sob o nome comercial de Delysid. Dado que reproduzia a percepção alterada da psicose, foi amplamente estudado e aplicado por psicanalistas e psiquiatras, dando assim origem à chamada “terapia psicadélica assistida”. Durante os anos 40 e 50, foram realizados mais de mil ensaios com cerca de 40 mil alcoó­li­cos, toxicodependentes, autistas, pacientes obsessivo-compulsivos, vítimas de distúrbios psicossomáticos e doentes terminais com problemas psicológicos. O psiquiatra britânico Humphry Osmond afirmou ter constatado uma “surpreendente taxa de recuperação e de continuação da abstenção”, com uma única sessão, no tratamento de um alcoólico. Foi também demonstrado que os alucinogénios produziam experiências estéticas e místicas.

Quando as drogas chegaram à rua, os ensaios começaram a ser questionados. Os títulos sobre a maléfica influência de um demoníaco LSD nos jovens começaram a chamar a atenção da sociedade. “Lancem ácido e não bombas!”, foi um dos lemas da contracultura, que andava igualmente a experimentar a psilocibina (componente activo dos fungos alucinogénicos) e a mescalina.

O vírus psicadélico começou a expandir-se, precisamente, em 1960, quando Timothy Lear (1920–1996), um professor de psicologia, regressou de uma viagem ao México. Ficara impressionado com os efeitos dos referidos fungos, utilizados durante milénios pelos maias, aztecas e outras culturas indígenas. Richard Alpert, igualmente professor de psicologia, e Huston Smith, filósofo do MIT, acompanharam Leary na criação do Projecto Psilocibina, em Harvard. Administraram a substância a 32 jovens reclusos da prisão de máxima segurança de Concord, no Massachusetts, e complementaram o ensaio com sessões de psicoterapia. Apenas 25 por cento voltaram à cadeia depois da sua libertação, e os testes de personalidade efectuados antes e depois da experiência revelavam uma apreciável evolução.

Timothy Leary, classificado por Richard Nixon como “o homem mais perigoso do mundo”, acabou por ser expulso de Harvard. No final dos anos 60, o LSD, a mescalina e a psilocibina foram incluídos na Lista I de substâncias proibidas (drogas sem aplicação terapêutica e com elevado potencial criador de dependência), a par da heroína ou da cocaína. Apenas o Exército e a CIA continuaram a estudar em segredo a capacidade do LSD para debilitar o inimigo ou controlar a sua mente. Os indivíduos sujeitos a experiências morriam de riso, abandonavam as armas ou dedicavam-se a alimentar os animais.

A actual renovação de interesse por estas substâncias podia ser comprovada em San Jose, cidade californiana que acolheu, em Abril, a conferência Ciência Psicadélica no Século XXI. O encontro de psiquiatras, farmacologistas, neurologistas e terapeutas foi organizado por Rick Doblin, fundador da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicadélicos (MAPS), que resume da seguinte forma a sua filosofia: “Pretendemos que as pessoas não tenham medo ou pensem que o passado se irá repetir: queremos retomar a investigação científica.” Um tema recorrente na conferência foi a necessidade de ser prudente até estar na posse dos dados das investigações em curso, e de aprender com os erros cometidos nos anos 60.

As semelhanças entre as sensações místicas produzidas em estados de meditação profunda e as experiências psicadélicas têm chamado especialmente a atenção dos estudiosos. Em 2006, Roland Griffiths, professor catedrático de biologia do comportamento na Universidade Johns Hopkins (Baltimore), administrou psilocibina a 36 pessoas saudáveis. Nos 14 meses posteriores à experiência, os voluntários mostraram sentir-se mais felizes e avaliaram a experiência como uma das mais importantes da sua vida, comparável à do nascimento de um filho ou à morte de um parente próximo.

A psilocibina está também a ser estudada por Stephen Ross, da Universidade de Nova Iorque, para tratar a ansiedade e a depressão em doentes terminais. Por sua vez, uma equipa de cientistas da Fundação Beckley (Reino Unido) utiliza LSD em estudos sobre criatividade e estados alterados de consciência. Além disso, tanto o ácido lisérgico como o princípio activo dos fungos alucinogénicos parecem aliviar as terríveis dores de cabeça que afectam as pessoas que sofrem de cefaleia em cachos, também conhecida por “cefaleia suicida”.

De qualquer modo, ninguém está em condições de assegurar que os compostos psicadélicos curam seja o que for, e as severas restrições legislativas permanecem. “Nenhuma droga que afecte o cérebro é totalmente segura”, explica Griffiths, “mas, ao contrário do álcool ou da cocaína, os alucinogénios clássicos não são fisicamente tóxicos nem criam dependência. Nos Estados Unidos, foi decidido mantê-los na Lista I. Ter uma quantidade de substâncias destinadas à investigação e considerá-las simplesmente perigosas é um caso sem precedentes para a ciência.”

Efectivamente, as substâncias psicadélicas exercem os seus efeitos benéficos sob o controlo de psicólogos ou psiquiatras especializados, que seguem protocolos internacionais. Em contrapartida, o consumo fora destes parâmetros e de ambientes controlados acarreta múltiplos riscos, mais graves ainda do que a aquisição no mercado negro de produtos adulterados. A complexidade de integrar as experiências na vida quotidiana, com o consequente desbloqueio de conteúdos reprimidos pelo inconsciente, pode provocar ansiedade, agravamento de doenças mentais, desequilíbrios emocionais...

“Administrado de forma adequada, o LSD não é mais perigoso do que outros fármacos. Creio que, um dia, será um medicamento como qualquer outro”, afirma Peter Gasser, que estuda na Suíça os efeitos ansiolíticos do ácido lisérgico em doentes terminais. E acrescenta: “Sob a influência dos alucinogénios, os indivíduos transcendem a sua identificação primária com o corpo e experimentam estados livres do ego. Depois, regressam com uma nova perspectiva e uma aceitação profunda da constante da vida: a mudança.”

David Nichols, professor de farmacologia médica na Universidade Purdue (Estados Unidos) e fundador do Heffter Research Institute, é considerado um dos maiores especialistas mundiais em substâncias psicadélicas. Obteve igualmente autorização para produzir e desenvolver experiências com LSD, que “desempenhou um papel determinante no estudo da comunicação entre os neurónios e na descoberta do neurotransmissor serotonina”, recorda. “Reconhecer que as drogas psicoactivas podiam influir tão profundamente no comportamento”, prossegue Nichols, “incentivou uma grande quantidade de estudos nos anos 50 e 60. Se uma pessoa sofria de esquizofrenia em 1940, o médico dir-lhe-ia que a mãe não a criara ou alimentara bem. Foram esses estudos que conduziram ao aparecimento dos actuais antidepressivos, como o Prozac.”

Na conferência de San Jose, um dos participantes foi o psicólogo clínico espanhol José Carlos Bouso, que foi autorizado a dirigir, no ano 2000, o primeiro ensaio clínico no mundo com 3,4-metilendioximetanfetamina (mais conhecida por ecstasy), na Universidade Autónoma de Madrid. Tinha por objectivo avaliar a sua eficácia no tratamento do stress pós-traumático crónico em mulheres vítimas de agressões sexuais que não apresentavam melhoras com os métodos convencionais. Embora o governo tivesse apoiado inicialmente a experiência, as licenças foram revogadas passado alguns meses no meio de alguma agitação mediática. “O MDMA é promissor para o stress pós-traumático, pois intervém no núcleo do problema”, explicou Bouso no encontro: “Ao induzir um estado de descontracção em que as emoções deixam de ser ameaçadoras, permite gerir as vivências com o especialista num período mais curto do que a psicoterapia tradicional.”

Actualmente, Bouso segue outra linha de investigação e trabalha, em conjunto com o farmacologista clínico Jordi Riba, do hospital de Sant Pau (Barcelona), com a ayahuasca, uma infusão elaborada com base na liana Banisteriopsis. Em concreto, estudam os efeitos neuropsicológicos em consumidores saudáveis. Há cinco anos, Riba já tinha registado através de um SPECT (tomografia por emissão de fotão único) a forma como a droga activava as zonas do cérebro responsáveis pela memória e pelas emoções. Por sua vez, o psiquiatra José Maria Fábregas, director do Centro de Investigação e Tratamento de Dependências, apresentou na reunião de San Jose os resultados de uma investigação, coordenada por Bouso, que estudara brasileiros com uma experiência de 15 anos como adeptos do chá psicadélico. Os resultados mostravam que não tinham quaisquer alterações neuropsicológicas ou psiquiátricas. De facto, em Fevereiro deste ano, o governo do Brasil legalizou o uso da ayahuasca em contextos religiosos.

É muito diferente o caso do ecstasy, objecto de debate devido às mortes de jovens consumidores. Há alguns anos, os meios de comunicação social divulgaram uma “experiência errada”, que consistia em administrar a símios doses massivas de uma substância que, afinal, se veio a determinar não ser MDMA. O ensaio constatou que a substância causava uma lesão neurológica irreversível. Posteriormente, o reconhecimento do equívoco não teve o mesmo eco, como é habitual.

É verdade que um consumo excessivo e prolongado da popular droga “recreativa” ou “de desenho” altera provavelmente diversas funções cognitivas, nomeadamente a memória, mas Doblin explica que “a falta de informação constitui um grande problema para os jovens”, e não vê que o caso seja tão linear. “Os consumidores dançam e consomem ecstasy durante horas. Se não se hidratarem correctamente, podem sofrer hipertermia, e a culpa tem sido exclusivamente atribuída ao próprio MDMA”, exemplifica. “No entanto, também podemos ficar intoxicados se bebermos demasiada água. Além disso, quando se compra droga no mercado negro, não se sabe o que se está a adquirir. O paciente tratado com ecstasy é acompanhado por dois terapeutas e tem sessões de psicoterapia antes, durante e depois do processo.”

Em Fevereiro passado, a FDA (agência norte-americana que autoriza a investigação e a comercialização dos medicamentos) deu luz verde à segunda fase de um estudo, a cargo da MAPS, dirigido por Michael Mithoefer com o objectivo de tratar com MDMA antigos soldados vindos do Iraque e do Afeganistão, grupos que registam uma elevada taxa de suicídios e distúrbios de stress pós-traumático. Actualmente, são medicados com cocktails de antidepressivos e anticonvulsivos. Além disso, o estado da Califórnia vai realizar, no próximo dia 2 de Novembro, um referendo para legalizar a marijuana. Até agora, a actual directora da agência norte-americana contra a droga (DEA), Michele Leonhart, tinha-se oposto aos estudos com esta planta, mas a crise económica parece ter mudado a posição oficial. Apesar disso, o estado do Texas condenou, em Abril passado, um indivíduo a 35 anos de cadeia pela posse de cem gramas.

Por outro lado, os efeitos adversos de certos fármacos autorizados poderiam servir de incentivo à investigação com substâncias proibidas. Em 2008, a FDA apresentou um estudo que relacionava o consumo de antidepressivos, como o Prozac ou o Seroxat, com o aumento de comportamentos violentos e suicidas entre os jovens; em 2001, um jurado considerou que o Seroxat levara um homem a matar a mulher, a filha e a neta e a suicidar-se em seguida. O fabricante do fármaco, a GlaxoSmithKline, foi condenado a pagar 6,5 milhões à família.

Porém, nem assim as alternativas psicadélicas têm o caminho facilitado. “É improvável que as companhias farmacêuticas mostrem interesse por estas drogas, pois não rendem patentes e os tratamentos duram pouco”, explica Rick Doblin.

Oito drogas com vocação medicinal

LSD – A dietilamida de ácido lisérgico (LSD-25) é uma substância semi-sintética que provém do alcalóide da ergotina, presente no fungo esporão-do-centeio. Efeitos: alucinações, distorções temporais, sinestesia (confusão dos sentidos) e experiências místicas. Vantagens terapêuticas: tratamento de dependências, cefaleia em cachos, síndrome de Asperger e ansiedade em doentes terminais.

Ibogaína – Alcalóide extraído da raiz do arbusto Tabernanthe iboga, procedente da África equatorial. Efeitos: aumenta a força muscular, é afrodisíaco, produz alucinações e promove a introspecção. Vantagens terapêuticas: tratamento de dependências.

Ayahuasca – Infusão amazónica com, pelo menos, dois ingredientes: uma planta que contenha um inibidor da monoaminoxidase (IMAO) e outra que forneça o princípio psicoactivo, a dimetiltriptamina (DMT). É consumida como remédio caseiro e em cerimónias religiosas. Efeitos: introspecção, visões, sinestesia e experiências místicas. Vantagens terapêuticas: tratamento de dependências, depressão e ansiedade.

Salvia divinorum – Descoberto no México em 1939, este vegetal era utilizado pelos xamãs. Efeitos: estado onírico sem perder a consciência (sonho consciente), riso incontrolável e introspecção. Vantagens terapêuticas: combate a dor, a insónia e o stress.

Mescalina – Os índios navajo norte-americanos e os huicholes mexicanos utilizam este alcalóide de plantas cactáceas em rituais desde tempos remotos. Consome-se mastigando os botões do peiote ou bebendo o caldo do cacto-de-são-pedro fervido. Efeitos: frouxidão muscular e distorções perceptivas. Vantagens terapêuticas: tratamento de dependências.

Psilocibina – Muitos fungos (em especial os do género Psilocybe) contêm este alcalóide. Efeitos: alucinações, hilariedade, sinestesia, experiências místicas e dissolução do ego. Vantagens terapêuticas: tratamento do distúrbio obsessivo-compulsivo, da depressão e da ansiedade em doentes terminais.

Marijuana – A tetrahidrocanabinol (THC) é o principal componente psicoactivo da planta Cannabis sativa. Efeitos: hilariedade, loquacidade, estado de sonolência, aumento do apetite e distorção temporal; pode também causar pânico ou taquicardia. Vantagens terapêuticas: desde a eliminação de náuseas na quimioterapia ao tratamento da insónia e da epilepsia ou ao alívio da dor em diversas doenças.

Ecstasy – A 3,4 metilendioximetanfetamina (MDMA) é um composto derivado de substâncias vegetais como o safrol (óleo de sassafrás) ou noz-moscada. Efeitos: euforia, abertura afectiva e desinibição. Vantagens terapêuticas: cura de traumas psicológicos e da depressão em doentes terminais.


Ouso de drogas alucinogénicas é tão antigo como a humanidade. Nas pinturas rupestres da caverna paleolítica de Tassili n’Ajjer, na Argélia, uma figura antropomórfica (provavelmente um xamã) surge rodeada de silhuetas de cogumelos e leva uma porção nas mãos. Posteriormente, na Grécia Antiga, celebraram-se durante 2000 anos reuniões e rituais de iniciação na cidade de Elêusis, perto de Atenas, em honra da deusa da agricultura, Deméter, e da sua filha, Perséfone.

Nos chamados “mistérios eleusinos”, bebia-se kykeon, uma mistura de água, ervas e cevada que se pensa poder ter estado contaminada pelo esporão-do-centeio, um fungo psicoactivo que parasita diferentes tipos de cereais e que contém LSA, precursor do LSD. O único requisito para ser iniciado e fazer parte da cerimónia era não revelar o que lá acontecia. Platão e outros filósofos atenienses participaram nesses rituais celebrados anualmente, considerados dos mais importantes da Antiguidade

Por sua vez, os xamãs siberianos recorriam ao cogumelo Amanita muscaria.Consta também que usavam soma, misteriosa planta da Índia presente em ri­tuais védicos e persas, embora pudesse tratar-se do cogumelo Amanita.


A.M.
Super Interessante

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