segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Médicos cada vez menos imunes à ansiedade dos utentes e a vacina ainda nem chegou

António Vaz Carneiro, que preside ao Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE), entende as dúvidas das pessoas e compreende bem o dilema dos médicos nesta “novela” da gripe A.

Este internista no Hospital de Santa Maria não encontra justificação para tamanha resposta da parte das autoridades.

Se, por um lado, concorda com as medidas preventivas que passam por mais cuidados de higiene, por outro discorda das posições e medidas alarmistas que “são mais políticas do que científicas”.

Por se tratar de “uma gripe normal”, António Vaz Carneiro considera que nem sequer deveria ter conduzido o mundo na busca de uma vacina e, muito menos, nos gastos astronómicos, nomeadamente com a aquisição de medicamentos que “só servem para diminuir 24 horas de sintomas”, numa referência ao Oseltamivir, que Portugal também adquiriu.

A vacina existe e Portugal comprou doses para 30 por cento da população, começando a sua administração no dia 26 de Outubro, para um pequeno grupo, dentro dos prioritários.

Inicialmente chegarão 49 mil doses, mas a totalidade só estará em território português em 2010.

Vaz Carneiro considera que, já que a vacina foi comprada pelo Estado português, só faz sentido a sua administração aos grupos de risco.

Mas nem todos entendem estes critérios. Antónia não acredita que as vacinas não sejam para todos e pensa que, se o pediatra recomendar, o filho terá direito a uma, o que não é verdade.

Por agora, as suas principais dúvidas vão para os alegados efeitos adversos da vacina, sobre os quais leu "em qualquer parte".

Essa “qualquer parte” é a Internet, onde uma busca rápida permite identificar centenas de conversas entre pessoas que tentam saber se a vacina é segura. Outras “revelam” que tudo isto é uma cabala para acabar com a humanidade ou dar dinheiro aos laboratórios.

Em relação à segurança da vacina, António Vaz Carneiro reconhece que, desde a identificação do genoma viral, até à produção da vacina, passou muito pouco tempo.

No entanto, acrescentou, “não existe nada que indique que esta é uma vacina mais perigosa do que as outras”.

O clínico está mais preocupado com a forma como a população está - e vai, certamente - encarar a doença, assim como a distribuição da vacina que deixará de fora 70 por cento da população.

“A ansiedade das pessoas, perante uma doença que tem um quadro clínico relativamente benigno, está a criar-nos muitos problemas”.

Esses problemas já chegaram ao centro de saúde onde trabalha a médica de família Adelaide, que mesmo antes do anúncio do início da vacinação contra o H1N1 já coleccionava algumas “pérolas” de medos.

“Tive uma doente que me disse que, assim que a vacina chegasse, ia ficar à porta deste centro de saúde (em Lisboa) até receber uma”, contou.

Um outro utente, de 76 anos, anunciou-lhe que jamais seria vacinado, pois sabia que “o Exército estava por trás”.

“Eu explico às pessoas, mas elas nem sempre querem ouvir e a verdade é que, quando me perguntam se a vacina é segura, eu também não tenho grandes dados que me permitam garantir que é”.

Lusa/SOL

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