Notícia - Vírus da sida já está a adaptar-se aos seres humanos, mostra artigo publicado na Nature

A dispersão mundial do vírus da sida tem mais que 30 anos, mas já há provas que o HIV está a adaptar-se ao homem. Um estudo internacional publicado hoje na revista "Nature", mostra que está a ganhar resistências às características imunitárias das várias populações humanas.

“Apesar de o HIV estar há pouco tempo nos seres humanos, tem conseguido evadir-se aos esforços naturais do controlo do vírus pelo sistema imunitário”, disse, em comunicado, Philip Goulder, da Universidade de Oxford (Reino Unido).

Sem medicamentos para controlar a infecção, uma pessoa que contrai o HIV demora em média dez anos a desenvolver a doença que acaba por matar. Mas em alguns casos, as pessoas ficam com sida em apenas 12 meses. E há outras que vivem 20 anos saudáveis sem tocarem num remédio.

Uma das causas desta variação temporal é a variabilidade do complexo de genes HLA. Estes genes são diferentes em todas as pessoas e permitem o reconhecimento dos agentes patogénicos, desencadeando a resposta imunitária capaz de, por exemplo, matar as células infectadas com o HIV. O vírus ataca principalmente os linfócitos CD4+ e, quanto mais capaz for o organismo de reconhecer o vírus através dos genes HLA, mais rápida e fortemente os CD8+ podem ser accionados para matar os CD4+ infectados e travar a infecção.

O que os investigadores descobriram é que, de acordo com variações populacionais no HLA, que permitem uma resposta mais forte ao HIV, o vírus tende a mutar e fixar a alteração nessas populações, fintando a resposta imunitária. “Em populações onde um gene do HLA favorável esteja muito presente, vemos que existe um alto nível de mutações que permitem ao HIV resistir ao efeito particular desse gene”, disse Rodney Phillips, um dos autores do artigo.

O estudo concentrou-se em várias regiões do globo, como o Reino Unido, África do Sul, Botswana, Austrália, Canadá e Japão.

O exemplo do Japão é paradigmático. O HLA-B*51 é uma variação de um dos genes do complexo que melhor respondem ao HIV. No entanto, 96 por cento das pessoas infectadas pelo HIV que têm este gene já apresentam o vírus com uma mutação capaz de se desviar dele.

No Japão, esta variação do HLA é muito comum na população. Isto faz com que mesmo entre as poucas pessoas que não apresentam esta variante genética, 66 por cento estejam infectadas com o vírus mutado para resistir a esta forma alternativa do gene. Hoje em dia, a resposta imunitária entre pessoas com e sem o HLA-B*51 é parecida, quando nos anos 1980 quem tinha a variante resistia melhor à infecção.

“A tentação é olhar para isto como uma má notícia, mas não tem que ser assim. Pode também ser que à medida que o vírus muda, outras respostas imunitárias passam a entrar no jogo e podem tornar-se mais eficazes”, disse Goulder.

Uma das implicações do estudo é que uma vacina futura tem que jogar com a capacidade de mutação do HIV e “actualizar-se”, como se faz actualmente com o vírus da gripe.

Nicolau Ferreira

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